<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5368368573352471239</id><updated>2011-04-22T00:45:41.084+01:00</updated><title type='text'>Arca de Palavras</title><subtitle type='html'>Abra... Cheire...

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Leia...</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>B&amp;amp;W</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06452825256964371109</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>9</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5368368573352471239.post-7908619345987506900</id><published>2008-01-25T19:01:00.000Z</published><updated>2008-01-25T19:03:31.710Z</updated><title type='text'>Do azul ao castanho</title><content type='html'>Esfregou os olhos e recomeçou a contemplá-la. Não podia acreditar no que estava a acontecer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela luz tinha sido emitida a uma velocidade fisicamente impossível, com uma força esmagadora, com um poder de penetração verdadeiramente balístico. Era imparável e tinha de fazer sérios estragos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luz partiu do azul, atravessou os ares e, escassos milésimos de segundos depois, atingiu o seu indefeso alvo castanho, estilhaçando-o em mil pedaços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A onda de impacto gerada pelo choque propagou-se em círculos concêntricos que fizeram abalar o Planeta e que ecoaram nos Céus. Se os anjos estivessem a tomar chá, ver-se-iam em apuros para não o entornar... Ainda hoje esse abalo é tema de conversa celestial...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao longo do seu trajecto, a luz cumpriu as leis da física e decompôs-se nas suas diferentes cores. E, em cada uma delas, determinou efeitos surpreendentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O azul, a primeira cor a surgir e a revelar-se, quase que foi fatal: trazia consigo a paz dos horizontes sem fim, a força indomável dos oceanos, a frescura dos rios, a música inexplicável das estrelas e a suavidade das nascentes. Tudo era possível naquele azul: respirar fundo e adormecer, arfar de excitação e ficar acordado noites sem fim, rir de felicidade, chorar de emoção, desejar absorvê-lo de bem perto, procurar a distância para captar o seu efeito em redor, querer tocá-lo, querer prová-lo com outros sentidos que não a visão. Era um azul que tudo revelava e tudo escondia, que dava e tirava, que prometia e se resguardava. Era um azul discreto e provocante, ingénuo e sensual, alegre e triste, que encerrava em si um mistério a pedir para ser revelado mas a ocultar todas as chaves para nele entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O castanho começou a absorver tudo isso e logo se apercebou do que se estava a passar. Mas foi tudo demasiado rápido e ele nem um gesto foi capaz de esboçar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À medida que o azul clareava, revelava toda a sua beleza. Antes de se transformar em verde quase ficou transparente e, nesse momento, o castanho conseguiu entrar dentro daquele azul, captar a sua essência, desvendar os seus segredos, decifrar a sua natureza. Em poucos instantes, descobriu a sua doçura, a sua paz interior, a sua solidão, a sua ternura, a sua inadiável necessidade de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois veio o verde e, com ele, a carícia da sombra das árvores, o murmúrio da brisa entre os seus ramos, o aroma da terra ao amanhecer, o perfume das rosas e dos frutos, a melodia das folhas a morrerem no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tardou muito para que viesse o amarelo e ele sentiu-se aquecer por dentro, como se aquela luz lhe tivesse trazido o sol para junto de si, iluminando a escuridão da sua vida, espantando todas as sombras que a habitavam e derretendo o gelo que se tinha vindo a instalar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois o laranja, ainda mais quente, e, logo a seguir, o vermelho. Foi aí que o incêndio deflagrou, completamente descontrolado, foi nesse momento que as chamas se atiçaram, se elevaram aos céus e o cercaram, sem deixar qualquer saída possível. O fogo devorou tudo o que estava em redor, consumiu os restos do passado, purificou o presente e ditou o futuro. E ele, qual Fénix, renasceu das suas próprias cinzas. Foi aí que ele sentiu que estava completamente apaixonado. E foi nesse instante que ele soube o seu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isto durou uma fracção de tempo e nesse tempo ele viveu toda uma vida, uma aventura inesquecível, uma viagem feita de cores, aromas e, sobretudo, de afectos. Enquanto a luz jorrava do azul ele, submisso, aceitou aquele baptismo de luz e amor e quedou-se a seus pés, de olhos fechados, braços caídos, sorriso mal contido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se conseguiu recompor, o castanho ergueu-se e procurou retribuir a dádiva maravilhosa que tinha recebido do azul. Sem saber como o fazer, sem saber como igualar semelhante oferta, esboçou um sorriso e deixou que o azul captasse a extensão dos efeitos causados, abrindo-lhe o seu coração e expondo as feridas agora abertas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O azul não percebeu logo o que tinha causado, não pressentiu o terramoto que tinha desencadeado, não imaginou que tinha iniciado a erupção de um vulcão, há muito adormecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o castanho, indefeso perante aquela tempestade imensa, conseguiu revelar o que lhe tinha sucedido, o azul caíu em si e deixou-se envolver pela branda ressonância da sua própria explosão. Recebeu no coração a brisa das ondas que provocou, o calor do fogo que atiçou e a ternura rendida que o castanho lhe dirigiu. E não mais o largou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Adoro os teus olhos azuis, meu amor. Desde o primeiro dia.” - diz-lhe ele com frequência e com ternura...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E eu, os teus, tão castanhos...” - responde ela sorrindo e, com esse sorriso, quase o fazendo chorar...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5368368573352471239-7908619345987506900?l=arcadepalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/feeds/7908619345987506900/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5368368573352471239&amp;postID=7908619345987506900' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/7908619345987506900'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/7908619345987506900'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/2008/01/do-azul-ao-castanho.html' title='Do azul ao castanho'/><author><name>B&amp;amp;W</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06452825256964371109</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5368368573352471239.post-1272812656269252701</id><published>2008-01-25T18:59:00.001Z</published><updated>2008-01-25T18:59:44.096Z</updated><title type='text'>O Triângulo</title><content type='html'>As portas da ambulância abriram-se e a maca entrou. A pobre mulher estava num estado lastimável. As sirenes começaram a tocar e as rodas chiaram sobre o pavimento molhado e frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era, sem dúvida, um dos piores Invernos dos últimos anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O impacto com o carro quase que lhe tinha separado por completo a alma do corpo e, na ambulância e, depois, no Hospital lutava-se para que isso não acontecesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oxigénio, sangue, fármacos, tudo foi usado para impedir a dissolução total.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lentamente, as últimas amarras quebraram-se e a alma partiu. O corpo nem pôde acordar para lhe dizer adeus. Ficou deitado, sozinho e frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frio como aquele dia de Inverno em que, no leito da estrada, um carro o traiu e levou a sua amante...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5368368573352471239-1272812656269252701?l=arcadepalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/feeds/1272812656269252701/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5368368573352471239&amp;postID=1272812656269252701' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/1272812656269252701'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/1272812656269252701'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/2008/01/o-tringulo.html' title='O Triângulo'/><author><name>B&amp;amp;W</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06452825256964371109</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5368368573352471239.post-1533426774398110097</id><published>2008-01-25T18:58:00.001Z</published><updated>2008-01-25T18:59:04.523Z</updated><title type='text'>Tango</title><content type='html'>Percorria o salão com um sorriso nos lábios ao som daquele tango.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentia-se nas nuvens e rodopiava com altivez e orgulho como o tango exigia, como ela merecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com ela nos seus braços, sentia-se a voar, indiferente a quem com eles compartilhava aquele espaço quente, pleno de vida e de paixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agarrado a ela, fixando os olhos nos dela, perscrutando-lhe a alma, encostando o rosto no dela, dançavam "La Cumparsita", "Loca de amor", "Por una cabeza", e emanavam uma aura de felicidade que a todos ofuscava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele apertava-a muito, desculpando-se com a paixão do tango mas, no fundo, agarrava-a como se tivesse medo de a perder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dançava sem parar, louco de amor e de paixão e nada o fazia abrandar. Tudo o resto tinha deixado de fazer sentido e aquela música, aquela dança, aquela mulher confundiam-se com a sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O calor do seu corpo, a doçura do seu sabor eram tudo o que ele queria sentir e viver e, ao dançar vivia, ao senti-la junto a si vivia, ela era a sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passou a dançar de olhos fechados, mãos nas mãos, rosto no rosto, corpos entrelaçados para, assim, a sentir melhor, mais próxima, mais sua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia abriu os olhos e ela não estava lá. Estava tão enebriado, tão apaixonado que nem se apercebera que já não a tinha junto a si e que o calor que sentia, o perfume que o envolvia eram apenas memórias gravadas na sua alma e no seu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou à sua volta e… nada. Nenhum sinal dela. Estava só naquele salão há tão pouco repleto de vida e onde agora mais ninguém se encontrava. Sentiu um frio intenso percorrer-lhe o corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixou cair os braços como quem desiste de viver, como quem se rende face ao destino e dirigiu-se para a porta. Olhou uma última vez para trás, apagou a luz e saiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda ouviu, pela última vez, as palavras de Carlos Gardel: " Yo no quiero que nadie a mi me diga que de tu dulce vida tu ya me has arrancado"&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5368368573352471239-1533426774398110097?l=arcadepalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/feeds/1533426774398110097/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5368368573352471239&amp;postID=1533426774398110097' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/1533426774398110097'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/1533426774398110097'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/2008/01/tango.html' title='Tango'/><author><name>B&amp;amp;W</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06452825256964371109</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5368368573352471239.post-5920047260091124504</id><published>2008-01-25T18:54:00.000Z</published><updated>2008-01-25T18:57:22.688Z</updated><title type='text'>Olha para mim</title><content type='html'>Permanecia com os olhos fechados sentindo nas pálpebras o calor tórrido do sol tentando forçar a entrada, procurando, a todo o custo, atingi-lo, feri-lo, cegá-lo, como se ele fosse culpado por todos os males do Mundo, como se fosse ele o responsável por o Sol, o famoso Astro-Rei, nunca ter sido mais na sua longa vida do que uma bola incandescente, a vomitar fogo a toda a hora, qual dragão permanentemente indisposto após uma indigesta refeição, feita de homens, de cavaleiros e de feiticeiros com pretensões a heróis, feita de todos aqueles que, ao longo de séculos, o desafiaram e fracassaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Franzia os olhos, cerrava as pálpebras, contraía a fronte não para se defender do Sol, mas para tentar focar aquela imagem que, no fundo dos seus sonhos, se vislumbrava, enevoada, difusa mas irresistível. O seu esforço era, por vezes, premiado com uma nitidez quase fotográfica, mas, quando estava prestes a descortinar a natureza daquele objecto (seria um objecto?…), os seus olhos cediam ao esforço e tudo ficava, de novo, desfocado e imperceptível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manteve-se nesta luta inconsciente, semi-adormecido, durante largos minutos. As imagens iam e vinham, foscas e depois mais bem desenhadas, sombrias e logo a seguir mais luminosas. Contudo, nunca conseguiu, sequer, reter uma forma ou uma cor que lhe permitissem dar um nome ao protagonista do seu sonho (estaria, de facto, a dormir?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentou-se com um princípio de dor de cabeça. Pegou no seu livro e, rapidamente, se esqueceu daquele bizarro e cansativo episódio de miopia onírica, mergulhado na leitura, no prazer que ela lhe proporcionava, nos mundos que lhe trazia e nos quais ele embarcava com um prazer quase infantil. Adorava a leitura e a escrita e, delas, apenas lamentava o pouco tempo que lhes dedicava. Sempre se desculpou perante elas, perante si próprio, com a falta de tempo, mas, pressentia, essa sempre tinha sido uma falsa razão…&lt;br /&gt;Mal sabia ele que aquele sonho, aquela miragem ondulante, aquele fantasma sem nome iria visitá-lo muitas mais vezes. Sim, aquilo tinha sido somente o princípio…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três meses tinham passado e, agora, sentia-se às portas da loucura. Aquela sombra passageira, inocente, insignificante tinha tomado conta das suas noites e dos seus dias. Despertava-o durante o sono, provocando-o, troçando dele, evoluindo da sua indefinição cinzenta até uma certeza quase decifrável, mas nunca lhe permitindo essa paz, esse consolo, esse descanso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante o dia, o mesmo. No trabalho, na rua, no carro, de olhos abertos ou fechados, dava por si a semicerrá-los, à procura do detalhe que lhe faltava, procurando surpreender aquele esboço de algo que não sabia o que era e, assim, capturá-lo na sua retina e no seu cérebro e depois colocá-lo, qual troféu de caça, nas paredes da sua memória, lado a lado com as suas recordações, as boas e as más, as felizes e as tristes, as desejadas e as que, de tão fundo cravadas, já desistira de tentar remover, pois, quanto mais tentava, mais as retinha e mais abalava as outras, as que o embalavam na doce brisa do seu passado, arriscando-se a danificá-las, a quebrá-las, a retirar-lhes aquele brilho resplandecente pelo qual sempre tinha zelado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vão. O fantasma permanecia, assombrava a sua vida, tirava-lhe a vida sem ele se aperceber, de tão obcecado que estava em arrancar-lhe a máscara, em olhá-lo, olhos nos olhos, e poder dizer-lhe: Sei quem és! Agora, podes ir. E não voltes mais!!  Mas nada. Ele continuava roendo-lhe a alma, atormentando o seu coração, cavando o abismo donde ele parecia já não conseguir, nem querer, sair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela presença foi-se tornando, quase sem dar por isso, indispensável, insuportavelmente necessária. Dava por si a procurá-la, a chamar por aquele rascunho de sonho, a contrair o seu rosto, em caretas patéticas, indiferente a tudo e a todos, num esforço desesperado de convocar aquela alma penada, de lhe sentir o cheiro, de lhe tocar no rosto, de a ver em toda sua verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixou de trabalhar, comia e bebia o mínimo que o seu corpo pedia, vivia para aquela sombra, alimentando-se dela, confundindo-se nela, dia e noite, noite e dia, numa vida que já não era vida, que já não merecia esse nome, porque não está vivo quem desiste desta maneira, tão brutal, tão indigna, de lutar, de ter, de ser. Ele tinha realmente capitulado. Trocara tudo o que tinha por uma imagem sem foco, sem corpo, abdicara de tudo pela teimosia irracional de a vencer, de a trazer para o mundo dos nomes, das coisas, do visível, do real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia viu-a. Por um instante, o seu esforço de concentração, então apuradíssimo, trouxe-a para o seu mundo. Tinha suspendido a respiração, retesado todos os músculos do corpo, fechado os olhos e, com eles bem cerrados, tinha exigido aos seus cristalinos, aos seus músculos ciliares, um derradeiro esforço, uma entrega sobrenatural, como se deles, daquele momento, dependesse a sua vida, a dos outros, a do Universo. Devagar, lentamente, foi-a puxando para si, como quem resgata uma vida suspensa no abismo, como quem estica a mão para tocar em Deus. Tinha o corpo coberto de suor, a fronte sulcada por vincos profundos, trémulos e húmidos, os punhos fechados, unhas cravadas na carne, nós dos dedos roxos, sufocados, pedindo ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lentamente, ela veio. Não consegue precisar o momento em que cegou, em que os seus olhos se renderam a meses de trabalhos forçados, a exercícios para os quais nunca foram preparados, a tentar ver o invisível. Na ansiedade da imagem que se formava, nem disso se apercebeu, da sua cegueira, subitamente instalada e irreversível, não percebeu que o que finalmente via não era com os seus olhos, mas com o seu coração, como diria o principezinho de Saint-Exupéry.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sorriu para ele e ele sorriu todo e ambos ficaram nesse sorriso, finalmente em paz com o mundo e com a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respirou fundo, ergueu-se devagar, tacteando a porta que deixara de ver e saiu para a rua, negra como a noite. Caminhou devagar por aquela escuridão, iluminado pela luz que tinha dentro de si, que, após tanto tempo, tinha sido capaz de acender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca ninguém entendeu como ele cegara. E nunca ninguém percebeu porque ele, cego, só e sem nada, sorria, sorria sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respirava devagar e o seu rosto, prematuramente envelhecido pelas batalhas que travara em busca de um sonho disforme, estava agora tranquilo, repousado, apenas percorrido por uma ou outra lágrima ocasional que descia dos olhos inertes, o afagava com uma carícia lenta, quente e salgada e se lançava nos ares, regando o chão por onde ele caminhava. Lágrimas de felicidade, de uma felicidade sem fim, sem explicação, sem remédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca antes tinha visto tão bem, pensava ele. - Tu és muito bonita, sabias? Ainda bem que te encontrei. Ficas comigo para sempre?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Para toda a vida…&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5368368573352471239-5920047260091124504?l=arcadepalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/feeds/5920047260091124504/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5368368573352471239&amp;postID=5920047260091124504' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/5920047260091124504'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/5920047260091124504'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/2008/01/olha-para-mim.html' title='Olha para mim'/><author><name>B&amp;amp;W</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06452825256964371109</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5368368573352471239.post-521004296952951087</id><published>2007-09-05T14:16:00.000+01:00</published><updated>2007-09-05T14:17:01.075+01:00</updated><title type='text'>Uma história com princípio feliz</title><content type='html'>Cada um para seu lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, então, o mar levou-os…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olharam para trás uma última vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Partiram sabendo que nunca mais se veriam. Partiram com os rostos inundados de lágrimas sem fim, diluídas naquele mar que delas se alimentava, de corações desfeitos e corpos trémulos, possuídos por uma tristeza tão profunda quanto a alegria dos primeiros momentos. Sabiam que, naquele instante, parte deles tinha sucumbido, ferida de morte, e que não poderiam nunca mais voltar a ser quem tinham sido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As ondas vieram, subitamente, como sempre fazem, sem se anunciarem, sem pedirem licença, sem contemplações, arrasando tudo aquilo que elas próprias tinham construído. Eles tentaram lutar, abraçaram-se com mais força, nadaram desesperadamente para se manterem à superfície, mas a força bruta das ondas, do vento, da corrente foi mais forte do que eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, eles nunca poderiam saber que a vida é, realmente, como o mar, sempre inconstante, sempre diferente e muito imprevisível. Embrenhados naquele abraço, tão sôfrego, tão reconfortante, esquecidos do tempo e de tudo, em permanente oração de Graças por aquela dádiva da vida e do acaso, não viram aquilo que todos os outros pressentiam. O mar da vida é cruel, muito cruel…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida corria-lhes bem, demasiado bem, diria quem os observasse de longe, sem estar envolvido, sem estar cego pela luz que deles emanava e que os aquecia, os alimentava, os sustentava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viveram como se a vida durasse um só dia, viveram freneticamente, intensamente, nada desperdiçando, nunca se separando, não se cansando de falar, de tocar, de beijar, de estar. Não, não se tratava de paixão, não se tratava de amor, tratava-se de um amor apaixonado, de uma mistura indescritível entre tudo aquilo que há de mais espontâneo, explosivo e fugaz nos afectos e aqueles sentimentos que duram toda uma vida, sem desgaste, sem fricção, sem fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cresceram à sombra desse amor, qual adubo divino que os fez desabrochar para a vida, para a vida no seu sentido mais real, mais belo, mais perfeito. Sentiam-se em comunhão com tudo e com todos e nada os parecia afectar ou atingir. Eram felizes, eram um só e, sabiam-no, sempre assim seria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram momentos típicos de uma história de amor, plenos de paixão, de olhares perdidos, de sorrisos sem razão, mas tão cheios dela, de beijos e carícias, de tudos e de nadas, de promessas e de planos, de saudade e de ansiedade, de vertigem e de miragem, de insónia e de suor, de… foram momentos maravilhosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinham-se conhecido por acaso. A vida é sempre assim, repleta de acasos, de tropeções, de actos fortuitos que nos empurram, que nos puxam, que nos deixam à deriva num mar demasiado vasto e poderoso para termos a ousadia de poder controlar. Por vezes quase nos afoga, a seguir resgata-nos e traz-nos à superfície, onde o Sol nos aquece e as ondas nos embalam para, depois, nos lançar nos mais violentos turbilhões que nos sugam até às profundezas gélidas e negras do mar da nossa vida. Alguém pensa que controla alguma coisa? Pura ilusão…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sorriu e, com aquele sorriso, respondeu a tudo. Sem o querer, sem o saber, tinha-lhe aberto as portas para um novo mundo, sem retorno possível ao seu. Ele soube-o imediatamente e, mesmo assim, entrou. Tinha de entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Olá, como te chamas?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5368368573352471239-521004296952951087?l=arcadepalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/feeds/521004296952951087/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5368368573352471239&amp;postID=521004296952951087' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/521004296952951087'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/521004296952951087'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/2007/09/uma-histria-com-princpio-feliz.html' title='Uma história com princípio feliz'/><author><name>B&amp;amp;W</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06452825256964371109</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5368368573352471239.post-7343562502991231129</id><published>2007-09-05T13:50:00.000+01:00</published><updated>2007-09-05T13:54:48.666+01:00</updated><title type='text'>Tu já não gostas mais de mim</title><content type='html'>Dizia isto com lágrimas nos olhos, ou, pelo menos, com tristeza no olhar ou na voz ou na forma como deixava cair os braços, em sinal de entrega, de rendição, de abandono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também a sua alma chorava nestes momentos, mas isso só ele conseguia captar. Era um choro diferente, sem sinais exteriores, sem manifestações somáticas, mas nem por isso menos evidente para ele que a conhecia tão bem, que era capaz de a radiografar com o olhar, de a analisar com os ouvidos, de a dissecar com a atenção que dedicava a cada gesto seu e a cada partícula do seu ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De facto, movimentava-se com grande à vontade pelos meandros da sua personalidade densa mas inconsistente, conhecia bem os contornos do seu pensamento e era capaz de antecipar as diferentes encruzilhadas a que ele conduzia. Mais difícil era, depois, saber optar por um dos múltiplos caminhos que cada linha de raciocínio proporcionava, alguns tentadores, outros tenebrosos, outros indefinidos, todos povoados por uma lógica própria, a dela, e que ele intuitivamente dominava e acompanhava. Desde sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É verdade, não é? Já não gostas de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As razões para semelhante questão (afirmação?) podiam variar, dependendo do momento e das circunstâncias em que eram pronunciadas. Podiam brotar da sua insegurança inata, visceral, um dos traços mais constantes do seu carácter, podiam nascer de uma zanga ou briga por grandes (raras) ou pequenos (tantas) motivos, por vezes serviam como mero estímulo quase infantil para obter o efeito pretendido - não, amor, é claro que te amo muito - ou, então, era a própria pergunta uma declaração de amor, amor expresso na preocupação pelo que ele sentia, assim traduzindo os seus afectos, tantos, por ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também a sua reacção era diversa, na justa medida da variedade de motivos que presidiam à interrogação. Podia ficar triste quando captava nela aquela mágoa infinita que tantas vezes a assaltava e que ele, impotente, não podia mitigar e onde tendia a entrar e permanecer até ambos dela se libertarem. Podia sorrir e responder-lhe com toda a mímica do carinho, muito mais eloquente que qualquer palavra que pudesse emitir: um beijo, um abraço, uma carícia e pronto, a resposta estava dada, sem espaço para dúvidas, sem hipótese de contra-interrogatório. Provas apresentadas, réu ilibado, caso encerrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A opção pelo verbo era sempre a mais aberta a múltiplas opções, qual teste à americana: - a sério?, - mas gostas como gostavas antes?, - porque dizes isso com essa voz?, - não sei porquê, sinto que já gostaste mais… etc., etc., etc. E então, o cenário estava montado para uma longa peça, uma novela em vários episódios, com um desfecho totalmente imprevisível. Apagam-se as luzes, correm os panos, silêncio por favor, o espectáculo vai começar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Amor, tu ainda gostas de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A doçura da expressão, a transformação da voz, a melancolia do olhar (olhos bem abertos, brilho semi-apagado, sobrancelhas arqueadas, quase desenhando o ponto de interrogação que, de facto, pretendem exprimir), a pose do seu corpo no momento em que lança esta incerteza não real a que as palavras tentam dar existência, toda esta busca daquilo que já tinha encontrado depois de tanto tempo e que, por isso mesmo, temia perder, tornavam-na ainda mais indefesa e frágil do que ela já aparentava ser e, na realidade, era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os anos foram passando, incertos como sempre acontece, inconstantes como convém, felizmente imprevisíveis e aquela dúvida ia e vinha, visitava-a regularmente e ela fazia questão em partilhá-lha com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda ontem podiamos ouvi-la a dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Anjo, tu já não gostas mais de mim…&lt;br /&gt;Ele, como sempre acontecera, respondeu-lhe como o momento solicitava, como o seu humor permitia, como o amor deles exigia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu amor, gostar de ti nunca foi opção para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virou-se e voou para outra núvem. Ajoelhou-se e colheu alguns fragmentos, compôs um ramo fofo e alvo e ofereceu-lho, completando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Gosto de ti porque sim. Não há mais nem menos para o quanto eu gosto de ti. Anda, vamos dar um passeio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrelaçaram as mãos, abriram as asas e perderam-se no meio daquele azul sem fim, igual ao amor que os unia e que nunca lhes tinha dado outra opção se não a de ficarem para sempre juntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora ela continuasse a duvidar…&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5368368573352471239-7343562502991231129?l=arcadepalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/feeds/7343562502991231129/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5368368573352471239&amp;postID=7343562502991231129' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/7343562502991231129'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/7343562502991231129'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/2007/09/tu-j-no-gostas-mais-de-mim-dizia-isto.html' title='Tu já não gostas mais de mim'/><author><name>B&amp;amp;W</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06452825256964371109</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5368368573352471239.post-4351383317258358475</id><published>2007-09-05T13:48:00.000+01:00</published><updated>2007-09-05T13:52:15.083+01:00</updated><title type='text'>Uma Noite</title><content type='html'>Recomeçou a escrever. Ou melhor, a tentar escrever. A folha permanecia em branco há horas e ameaçava tornar aquela noite igual a tantas outras. Tão branca como as páginas que se revelava capaz de preencher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem sempre fora assim. Tempos houveram em que escrevia a uma velocidade estonteante, em que as palavras quase acompanhavam o fluxo do seu pensamento e as páginas não paravam de se avolumar, plenas de vida, de histórias fantásticas, de pensamentos emocionantes, de vidas invejáveis. Agora, o branco do papel atormentava-o, feria-lhe os olhos, cegava-lhe o espírito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não conseguia dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez mais uma tentativa e sentou-se em frente ao papel. Demorou-se em pensamentos, ideias e argumentos. Espremeu a sua vida, a dos outros, a de ninguém... nada, nem uma linha, um título, uma palavra que fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantou-se e foi para a rua. Talvez o ar fresco o ajudasse, talvez o contacto com a vida, com as pessoas libertasse algo de dentro de si. Sentia-se em pânico. Já tinha ouvido falar nos bloqueios que afectam os escritores mas sempre se sentiu imune a esse tipo de afecções. Pois é... puro engano...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou a caminhar, atento a tudo e a todos. Viu cenas triviais, pessoas indiferentes, casais apaixonados, crianças perdidas, tristes, alegres, a brincar, cães, pedintes. Deixou-se ir, sem rumo, sem destino, sem pressa. Ainda confiava que algo iria surgir, que o seu talento se iria manifestar a qualquer momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentiu odores, viu cores, ouviu sons, gritos, risos e choros. As suas mãos tocaram tudo o que puderam, o chão, a terra, o rosto daquela menina, a mão de uma anciã, o pelo de um cão tinhoso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desolado, desesperado, retomou o caminho para casa. De nada lhe tinha adiantado todo aquele tempo, todo aquele esforço. A sua cabeça permanecia vazia, incapaz de articular um pensamento ou uma frase.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subiu os degraus, meteu a chave na porta e entrou. Dirigiu-se à sua mesa e sentou-se. Foi então que se apercebeu: tudo estava diferente. Em vez da pilha de papel vazio que tinha abandonado em desespero algumas horas antes, tinha agora à sua frente três conjuntos de folhas, meticulosamente ordenadas e repletas de palavras. Olhou em redor, assustado. Quem teria entrado em sua casa durante a sua ausência? Reparou, depois, que nada mais tinha sido mexido, que nada tinha desaparecido, que tudo estava na mesma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais calmo, sentou-se e começou a ler. Os textos que tinha à sua frente eram belíssimos! De facto, nunca vira nada igual. Ao longo de mais de cem páginas, comoveu-se, riu, sorriu, chorou, encantou-se com tudo o que leu. Aquelas palavras, aqueles textos falavam de tudo, do amor, do mundo, da vida... até da morte... E falavam sempre com clareza, com verdade e com toda a convicção, daquela que resulta da experiência, da dor e da alegria intensamente sentidas. Era impossível ficar indiferente a tudo o que lera. E, na realidade, a leitura daquelas palavras, escritas por mãos invisíveis, preparava-se para mudar toda a sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo era agora mais claro, evidente, urgente e inadiável. Percebeu, subitamente, que lhe restava pouco tempo e que tinha milhares de coisas por fazer, por dizer, por viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saltou da cadeira, pegou no casaco e correu, de novo, para a rua. Sentia-se estranho, vivo, assustado, nem sabia por onde começar, sabia apenas que tinha de recuperar o tempo perdido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A imagem dela, sempre presente, surgira agora com mais intensidade. Amava-a desde que a conhecera, um dia, por acaso. Desde esse dia, em que o amor nascera, ele não tinha parado de aumentar. Pensava nela a toda a hora e, de mil maneiras diferentes, já lhe tinha demostrado tudo o que sentia. Contudo, nunca tinha sido capaz de o dizer, olhos nos olhos, talvez por cobardia, talvez pelo medo da resposta, talvez pelo pânico de perder a sua preciosa companhia. E era tão bom estar ao pé dela...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a leitura daquele ensaio sobre a vida fizera-o entender que nada justificava ele esconder um sentimento tão intenso. Ela tinha de o ouvir da boca dele. E depois... logo se veria... Ela, sem o saber já lhe tinha dado tanto, tantos momentos tão bons, tão fortes, tão especiais, que, no mínimo, merecia ouvir aquela palavra que, ao longo de uma vida, poucas vezes se ouve e poucas vezes se sente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, telefonou-lhe e convidou-a para jantar. Ele adorava aqueles longos jantares em que, com ela à sua frente, falavam sobre tudo e ela o aquecia com a sua voz, o seu sorriso, o seu olhar. As horas e os pratos passavam sem darem por eles e, no final, ficava a antecipação do próximo encontro... sempre cheio de saudades...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegado o dia, foi buscá-la. Ela, linda como sempre, ele... sem palavras...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegaram ao restaurante e começaram a conversar. Ele estava nervoso. De repente, quase sem pensar, disparou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Amo-te.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta não o surpreendeu: o amor que sentia por ela tinha um só caminho. Ela não o amava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esperança de uma vida nova, encorajada por tudo aquilo que lera, estava agora perdida. Levou-a a casa, despediu-se e, lentamente, tomou o caminho para a sua. Sentou-se em frente à sua secretária e olhou para os textos sem autor. Reparou, então, que, no entusiasmo que aquelas palavras lhe tinham causado, não lera a última página. Ainda combalido e muito menos interessado, pegou nela e começou a lê-la. No fundo, não tinha muito que ler. Contudo, a mensagem era clara, inequívoca e profundamente cruel: ali podia ler, preto no branco, o seguinte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despiu-se e deitou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apagou as luzes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante alguns minutos fitou o tecto, iluminado pelo luar. Viu o rosto dela. E, com uma lágrima rolando-lhe pelo rosto, adormeceu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5368368573352471239-4351383317258358475?l=arcadepalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/feeds/4351383317258358475/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5368368573352471239&amp;postID=4351383317258358475' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/4351383317258358475'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/4351383317258358475'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/2007/09/uma-noite-recomeou-escrever.html' title='Uma Noite'/><author><name>B&amp;amp;W</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06452825256964371109</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5368368573352471239.post-1135294416249953212</id><published>2007-08-27T17:02:00.001+01:00</published><updated>2007-09-05T13:52:30.007+01:00</updated><title type='text'>Sem dor</title><content type='html'>Ele nunca conheceu a dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, não estou a falar em sentido figurado, é assim mesmo: ele nunca conheceu a dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim desde que nasceu. Nem chorou quando lhe deram aquela palmada tradicional no traseiro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após alguma investigação os médicos descobriram o problema e fizeram o diagnóstico: Insensibilidade Congénita à Dor. Era isso que ele tinha. Foi com um ar consternado que os pais receberam dos médicos a tremenda lista de cuidados que tinham de ter para evitar que ele se magoasse. E foi com lágrimas nos olhos que souberam que, mesmo assim, seria difícil evitar uma fatalidade...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, não desistiram. Deixaram de trabalhar, gastaram tudo o que tinham na remodelação da sua casa, revestindo-a com materiais esponjosos especialmente concebidos, eliminaram todos os objectos potencialmente perigosos, enfim, tudo fizeram para que o seu único filho pudesse brincar e crescer sem que nada lhe acontecesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante dezoito anos viveram os três nesta estufa, sem problemas de maior. Quando, regularmente, o médico os visitava ficava absolutamente espantado e não poupava elogios ao enlevo com que os pais tinham sabido proteger o seu filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que um dia o pior aconteceu. Ele gostava muito de estar à janela. Coitado, pouco mais podia fazer... e foi assim que a viu passar. Ficou de cabeça perdida... irremediavelmente... pudera, ela era perfeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abriu a janela e chamou-a. Ela virou-se, sorriu, e dirigiu-se para ele. Ele apresentou-se e, durante horas, falaram e falaram... estava completamente apaixonado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante várias semanas assim foi, até que ele se encheu de coragem e declarou o seu amor. Ela não lhe mentiu e disse-lhe que, embora gostasse dele, não o amava... e retirou-se...&lt;br /&gt;Ele ficou... estranho... nada lhe doía, como sempre, mas algo estava errado. Levou a mão ao peito e não sentiu o bater do seu coração. Tinha sido ferido de morte. E poucos segundos depois caiu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando os pais chegaram, não podiam acreditar...o seu filho...como podia ter acontecido?...como?!...COMO??!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproximaram-se dele... nada, nenhuma marca e, no rosto, a mesma expressão serena de sempre, de quem nunca sentiu a dor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois é...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi, talvez, o primeiro homem a morrer de amor sem sofrer... sem sentir dor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bela consolação...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5368368573352471239-1135294416249953212?l=arcadepalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/feeds/1135294416249953212/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5368368573352471239&amp;postID=1135294416249953212' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/1135294416249953212'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/1135294416249953212'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/2007/08/sem-dor-ele-nunca-conheceu-dor.html' title='Sem dor'/><author><name>B&amp;amp;W</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06452825256964371109</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5368368573352471239.post-6151762557466219056</id><published>2007-08-27T16:28:00.000+01:00</published><updated>2007-09-05T13:52:45.447+01:00</updated><title type='text'>A Viagem</title><content type='html'>O dedo indicador contraiu-se nervosa e inexoravelmente. Até que a raiva explodiu e o projéctil iniciou a sua viagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cruzou os ares impulsionado pelo ódio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quarto arco costal esquerdo não ofereceu grande resistência. Fragmentado em mil estilhaços cedeu passagem ao viajante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O coração era o próximo do itinerário: pulsátil, vibrante, morno...tenro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida o pulmão: borbulhante, crepitante...fácil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns músculos e, de novo, o ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfraquecido e ensanguentado, o projéctil perdeu altura. Mergulhou no solo, emitindo um ruído metálico...três vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha acabado de morrer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5368368573352471239-6151762557466219056?l=arcadepalavras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/feeds/6151762557466219056/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5368368573352471239&amp;postID=6151762557466219056' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/6151762557466219056'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5368368573352471239/posts/default/6151762557466219056'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://arcadepalavras.blogspot.com/2007/08/viagem-o-dedo-indicador-contraiu-se.html' title='A Viagem'/><author><name>B&amp;amp;W</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06452825256964371109</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
